Kiss & Yell: Coleção de Pequenos Pecados Amorosos é um seriado-literário de ficção publicado semanalmente e dividido em temporadas. Sobre relacionamentos e tudo aquilo que não deveríamos falar. As frases erradas, os enganos e os segredos contados para os melhores amigos que já enjoamos de pegar. As traições, pequenas transgressões e as visitas íntimas. Os números de celular que não conseguimos apagar, a prática de stalking em nível avançado e o autismo sexual. Sobre se descobrir no outro, mesmo quando não há nada com o que você se identifique. E se perder, sempre, para ser encontrado.

Se você está começando agora, veja a Lista de Episódios para não se perder.

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Coleção de Pequenos Pecados Amorosos virou livro!


Coleções marcam pequenos ciclos. Um tanto de lembranças guardadas que fazem sentido só para quem fez o recorte ou se identifica com aquilo. Em agosto, o Kiss & Yell  completa um ano de existência. Foram textos publicados diariamente, semanalmente e depois, confesso, mensalmente, contando uma história um tanto pessoal (nem sempre minha ou só minha, que me desculpem os envolvidos).

É por isso que venho avisar que agora você pode adquirir a obra, lançada de forma independente, Coleção de Pequenos Pecados Amorosos, baseado no Kiss&Yell. A impressão, venda e distribuição são feitas pelo Clube de Autores, que aceita as principais formas de pagamento e entrega o livro na sua casa. Também é possível comprar o e-book em PDF e lê-lo em seu tablet, celular e computador.

E agora você se pergunta: por que comprar algo que eu posso ter de graça na internet? E eu respondo:

- o livro tem capítulos adicionais e textos não publicados no Kiss&Yell. O final da história, por exemplo, estará apenas lá.

- é uma forma de você carregar isso com você e usar contra alguém caso seja preciso (não vale comigo; estou imune)

- comprando o livrinho você ajuda o autor a divulgar a sua obra.

- não vou ficar rico com isso, só espero que as pessoas conheçam mais sobre o que está aqui.

 

É isso! Qualquer dúvida, entrem em contato comigo pelo e-mail: felipeluno [@] gmail.com

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S02E15: The Stranger

Cada um sabe quanto tempo é preciso para cicatrizar uma ferida. Seja com o sopro da mãe ou o abraço de um amigo, a pele nunca mais se fecha da mesma maneira. São novos tecidos, novos tempos. Uma marca que você pode carregar para sempre, ainda que invisível a olho-nu.

Deve ser difícil demais terminar um relacionamento e manter-se próximo à pessoa. Acompanhar a dor de transformar o amorem amizade. Vê-laconhecer novos amores, utilizar táticas que usou com você. Artifícios que funcionaram e vão continuar funcionando.

Parecia para mim que a melhor forma de lidar com a ausência de Vinícius seria feri-lo. Cometer um pecado amoroso sim. Um erro calculado, ciente das suas proporções e punições prováveis. Magoá-lo seria uma forma de afastá-lo de mim e poder curar-me sozinho.

Não foi meu namorado quem terminou comigo. Não houve um fim, com todas aquelas palavras que carregamos para debaixo do travesseiro todas as noites. Era mais como um coletivo de ausências constantes. Como eu poderia manter meu amor aquecido se ele estava tão longe, sem dar notícias? Como manter esse relacionamento estabilizado, no ponto em que parou, se a vida continuava? Continuava sem ele.

Agora eu moro com Felipe. Sim, mais um nome masculino em minha vida. Felipe é ex-namorado de Vinícius, trabalha como fotógrafo para uma revista. Ganha mal, mas recebe dinheiro dos pais que moram no interior. Parte desse orçamento ele usa para comprar maconha. Cada dia ele utilizava um nome diferente para descrever a erva. Só aceitei quando ele a chamou de Vinícius.

Felipe era muito divertido e tinha uma mania de andar de toalha pela casa. Comprei para ele um hobby, mas este nunca saiu de trás da porta, pendurado junto à gravatas nunca usadas e um pôster de David LaChappele. Por fumar tanto, ele estava sempre com fome. Preparava refeições ótimasem minutos. Apoiávamosos pratos no colo, sentávamos na sacada e ele fingia bem me entender enquanto eu proclamava meu mimimi decorado.

Suas soluções eram sempre práticas: está com saudades? Ligue. Está triste? Coma brigadeiro. Está insatisfeito? Termine o namoro. Está irritado? Faça sexo. Esta última tinha sabor de um  convite e eu cada vez mais tinha vontade de aceitar.

Ser fiel. Condição especial. A vitória da mente sobre o corpo. Reagir aos seus impulsos primitivos e controlá-los. Não atender aquele telefonema, não responder àquele flerte. Negar-se a oportunidade da iniciativa. Uma coletânea de negativas em prol de um sim: a fidelidade amorosa. Este era meu exercício diário: a resistência.

O mundo talvez fosse um lugar mais feliz se a fidelidade fosse condicional. Eu prometo dedicar todo meu amor a você enquanto você estiver presente e me fazendo feliz. Caso uma dessas condições não seja cumprida, este amor, que é meu, então dedicado a você, pode ser transferido à outra pessoa.

Eu tentava me enganar achando que seria fácil assim encontrar um novo destinatário para o meu espólio sentimental. Não era simples assim. No entanto, o que fazer com a vontade de me distrair da solidão com uma boa dose de sexo? O que fazer quando você não acredita mais em filme pornô? Masturbação? Sexo com a pessoa que você mais ama, diria Woody Allen. Eu nunca fui meu tipo.

E é por isso, por andar a perigo, que eu me tornava distraído em todos os lugares. Na faculdade, eu observava a tudo e a todos. O intervalo entre as aulas era o meu safári e nunca me faltou gazela. Não lancei ataque algum, mas não foi por falta de vontade. No estágio, a situação era pior ainda. Não raro me peguei flertando com colegas de trabalho. Cheguei a desferir um golpe para cima do próprio chefe, que foi logo repreendido. Despedido por desejo de uma pica. Este seria meu destino.

A tristeza de ter um relacionamento a distancia, ou estar distante dentro de um relacionamento, é que tenta-se compensar esta falta com excesso de amorzinho. Eu não precisava de amorzinho. Amorzinho eu encontrava no Tumblr, em abraços de amigos, em tweets de pessoas fofas e pseudo-felizes. Eu precisava de consumação, possessão e cigarros acesos após essa sessão. Se sexo, por fidelidade, me era proibido, a resposta era balada. Ali, a consumação era em bebida, a possessão era por hits de Lady Gaga e os cigarros eram empréstimos sem devolução. Vivela Fête.

Não existe promiscuidade. Existe sexo aleatório. A escolha por um parceiro que satisfaça a sua vontade e pronto. Isto não era eu. Eu não penso assim. Mas estava pensando. Ainda não estava agindo como, mas estava pensando. Era como se eu estivesse girando, em efeito espiral, indo cada vez mais longe da rota que eu tracei por algo tão simples.

O que eu precisava era de alguém que me desse uns dois ou três tapas morais na cara. Um amigo que me levasse ao cinema e enfiasse uma pipoca na minha boca cada vez que eu tentasse beijá-lo. Alguém que me ameaçasse com castração química cada vez que eu propusesse sexo. Mas onde encontrar isso? Eu precisava de alguém que não sentisse a menor atração por mim. Não seria difícil de encontrar, claro, mas quem mantém contato com esse gente que se sente assim sobre você?

A melhor forma que eu encontrei foi dançar com uma garota. Renata era o nome dela. Tinha os cabelos estrategicamente tingidos de preto para tornar a sua pele ainda mais branca. Ela brilhava naquele lugar e não era por ter esbarrado no glitter de uma drag queen. Existia algo dela que gritava por vida. Podia ser só êxtase. Podia ser cocaína.

A verdade é que eu bebi demais como forma de me estabilizar. Foi um porre calculado. Homem nenhum chegaria em mim naquele estado e nenhum me levaria à sério falando tão enrolado como eu estava. E foi aí que Renata foi solidária e me levou pra casa.

Enquanto eu me recuperava, deitado em seu sofá, enrolado em cobertor, ela fumava maconha e reclamava sobre o namorado sempre ausente. Fotógrafo de arte, barbudinho, mal humorado. Você conhece o tipo. Eles estão por toda a parte. (Menos na minha cama, eu pensava).

Talvez eu estivesse no cio, mas, enquanto caminhava ao quarto de hóspedes, via as fotos na parede daquele casal e ele me parecia tão atraente. Parecia conhecido. O nome dele estava na ponta da língua, mas o álcool não me permitia. Apesar de um tanto tonto, resolvi tomar um banho antes de dormir.

Renata me avisou para eu não trancar a porta do banheiro. Disse que só pessoas da casa sabiam destrancá-lo e eu poderia passar mal com o vapor e precisar da ajuda dela. Acreditei. Quando estava começando a passar shampoo no cabelo, a porta se abriu. Encostei na parede do box, meio assustado. Renata entrou, tirou a camiseta e todo o resto. Juntou-se a mim debaixo do chuveiro e me deu um beijo. Não sei se o beijo foi longo, mas fomos interrompidos. A porta se abriu. Era o namorado dela e eu estava certo. Ele não era um estranho.

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S02E14: Out With The Old, In With The New

Minha casa só deixou de ter poeiras sob os móveis quando eu precisei me mudar. E foi assim que notei aquelas fotografias que não via de perto há um bom tempo. Os livros não-lidos e as roupas que Vinícius guardou perto das minhas. Lá no canto do armário, mais do que camisetas, havia um registro de todo um tempo que passamos juntos.
Estranho como um lar pode dar uma sensação de segurança. Aquele era nosso bunker amoroso. Quando o mundo parecia desabar, quando as inseguranças eram maiores que qualquer prova de amor, duas taças de sorvete e pernas entrelaçadas faziam despertar a esperança no mundo.

Eu iria mudar de apartamento. O dinheiro que meu pai deixou já se acabou e meu irmão Thiago levou o resto. Fugiu. Minha mãe namorava um empresário mais velho que não era muito fã de sustentar os filhos de sua mantida. Sobrou pra mim arranjar um emprego e conciliar a rotina com a faculdade. O orçamento não fechava. Meu pequeno palácio de dois quartos precisava ser abandonado.

Como solução, Vinícius conseguiu com que eu passasse algum tempo na casa de seu ex-namorado. Eu não daria esse tipo de confiança. Jamais confiaria que um namorado meu morasse com ex, fosse meu ou dele. Os círculos de relacionamentos homossexuais são cada vez menores. É como se houvesse um grande álbum a completar e todos tirassem apenas as mesmas figuras. Esse jogo eu não queria jogar.

Enquanto ele não se importava com isso, eu fechava caixas e jogava um tanto de lixo fora. A luz e a água já estavam cortadas. Foi assim que eu percebi que preciso de bem pouco pra viver. Talvez trabalhar com algo que eu goste, sentir que estou aprendendo algo, ter alguém que eu ame e ter um lugar para comer e dormir. Não precisava de tantos enfeites de mesa, toy art na estante e um iPad que não servia para nada mais do que iluminar meu quarto quando eu deixava meu brinco cair embaixo da cama. Tudo estava ali e eu nunca reparei. O essencial estava guardado. Em caixas. Em mim.

E a noite foi chegando e já quase não havia mais luz. Nós pedimos uma pizza e nos sentamos em cima de toalhas velhas, no meio da sala. Vinícius saiu do apartamento e voltou rindo, com duas velas de sete dias. Tinha como não rir? Tinha.
A verdade é que, quando nós fomos dormir, eu chorei um pouco. Não foi pela falta de dinheiro, por ter que abandonar o apartamento. Nada daquilo era meu. Nada daquilo era uma conquista minha. Eu herdei, ganhei, troquei. Mas nada dependeu de esforço meu. A única coisa que envolvia certo empenho de minha parte era Vinícius. E eu sabia que ele não era meu, mas eu me sentia como se fosse dele.

Talvez fosse abstinência de chocolate, mas é preciso tomar cuidado quando você se vê tão dependente de alguém. Como eu agiria se ele fosse embora? Se tudo acabasse, sem aquelas nossas discussões, sem o sexo de reconciliação? O que me sobraria? Sobraria apenas eu. E é por isso que, mais do que nunca, eu precisava ser suficiente para mim.
Não tinha vergonha nenhuma em sair dali. Eu trabalharia e pagaria metade do aluguel para Alex, ex de Vinícius.

Continuaria a faculdade até conseguir algo melhor. Conquistaria minhas coisas pouco a pouco e elas seriam minhas. E eu me tornaria mais digno de ter um homem como esse que tenho na vida. Se até agora, ter Vinícius parecia um golpe de sorte, eu precisava transformar isso em sintonia, identificação. O cara certo na hora certa.

Chorei baixinho. Não deixei nem as lágrimas tocarem ao chão. Acho que eu só estava um tanto melancólico, choroso. Bobo. Mesmo assim, acho que Vinícius ouviu. Logo pela manhã, me deu um bilhete de ônibus, um abraço apertado e me disse que iria atrás de Thiago para recuperar meu dinheiro.

Aprendi nesses últimos tempos que só posso controlar o que me diz respeito. Posso me esforçar para ser uma pessoa melhor e tenho que acreditar que pessoas melhores também vão gravitar ao meu redor por causa disso. Cada gesto de amizade, cada manifestação de afeto deve ser encarada como um incentivo para não se perder desse caminho.

É preciso muita força para deixar de ser medíocre. Mais do que isso, é preciso de amor. Não falo de paixões de cinema ou grandes noites de sexo. Aquele amor silencioso, que cabe dentro do bolso, uma simples chama acesa como de uma vela, mas que não há sopro que apague. Sendo assim, deixei ele ir e fui para minha nova casa.

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S02E13: Sweet Escape

Visitar os pais quando você não mora mais com eles é sempre algo esquisito. Não há mais um canto com as tuas revistas, o tempero da comida muda. Seus canais de TV não são mais a trilha sonora do dia e o teu antigo quarto vira escritório ou abrigo do irmão mais novo.

Meus pais se separaram algumas vezes enquanto eu era pequeno. Foi estranho me adaptar à rotina de ter duas casas, conviver com os novos amores temporários. Meios-irmãos. Achei, por muito tempo, que havia me tornado meio filho dos dois, sem ser exatamente de ninguém.

Por isso, foi fácil me tornar meu. É certo que eu dedicava atenção demais a relacionamentos por sentir falta de atenção familiar. Em casa, não havia fotos da minha infância ou adolescência. Eles estavam ocupados demais em reorganizar as suas novas vidas enquanto eu orbitava ali, crescendo sem entender meu espaço em tudo isso.

Engraçado que o que foi preciso para me reaproximar da minha família foi uma separação. Meu pai resolveu sair de casa novamente. Dessa vez, sem volta. Criou uma poupança para cada filho, sendo mais generoso com os pequenos e menos solidário com os mais velhos, que somos Thiago e eu. Para minha mãe, nada.

Mais do que a ausência, isso modificava completamente a dinâmica da família. Minha mãe não trabalhava, não cozinhava e até terceirizava atendimento de ligações para a empregada. Meus irmãos menores estudavam em colégios particulares caros, faziam aula de judô, natação, inglês, francês e cerâmica oriental. Thiago morava comigo e eu, bom, eu dependia de mesada o meu pai e não sentia a menor vergonha disso.

Cada móvel que saía daquele apartamento parecia levar um pouco da história da gente. Armários com mais de quinze anos, coleções de CDs antigos, uma televisão maior que meu ego. Ficaram apenas espaços em branco, antes ocupados por patrimônio. O que sobrava? Nós.

Eu tentava não ser egoísta, mas calculava ali o quão dependente de mim minha mãe se tornaria com tudo isso. Eu teria que voltar para casa? O papel de filho protagonista foi roubado de mim por Thiago. Senti ciúmes. Eu era o filho mais velho, mas ele parecia mais interessado em tomar decisões pela casa do que eu jamais seria.

Voltei a ter o hábito de falar com minha mãe semanalmente. Ela parecia segura após a separação. Tinha retomado contato com amigas antigas, queria fazer uma tatuagem que simbolizasse sua nova fase, mas ainda não pensava em trabalhar. Thiago tomava as decisões financeiras por todos nós e agora ficava no meu antigo quarto, na casa dos meus pais.

A faculdade ocupava o resto dos meus dias e eu me sentia esgotado à noite. Ao chegar no apartamento, não era incomum ver Vinícius lá, conversando com Thiago pelo computador e eu observava meu irmão ocupar cada espaço importante na minha vida. Eu precisava encontrar alguma maneira de colocá-lo em seu lugar. Mas, ao mesmo tempo, eu queria assumir a responsabilidade de conduzir a família para mim? Eu queria me tornar mais amigo do meu namorado e correr o risco de nos encontrarmos conversando sobre a programação da TV e o pó de café que falta no armário?

Conforme vamos ficando mais velhos, a vida oferece algumas oportunidades de selecionar as responsabilidades que cabem sob nossos ombros. Algumas são obrigatórias, como ser responsável por si mesmo. Eu levava comigo só o que era obrigatório, deixando todo o opcional para quem estava comigo.

Vinícius vivia dizendo que eu deveria ser mais como Thiago. Falava que minha mãe precisava de mim e que eu tinha uma oportunidade única de estar mais perto da minha família e remediar qualquer mágoa antiga. Eu não tinha pressa que Thiago parecia ter.

Sempre me achei muito parecido com meu irmão. Nossa indiferença por nossos pais era algo que nos uniu por muito tempo. Quando ele se revelou gay, ficamos ainda mais próximos. Sim, me incomodava muito a proximidade dele com meu namorado e agora com minha mãe, mas ele fazia o serviço sujo, que eu não queria fazer. Ele era dedicado, obstinado. Coisa de adolescente cabeça-dura, eu pensava.

O que eu não imaginava é o quão sujo esse serviço poderia ser. Como tesoureiro oficial da família, Thiago tinha acesso a todas as senhas e códigos. O dinheiro que restava do espólio do meu pai estava em suas mãos. Éramos mais parecidos do que eu imaginava. Ele também amava dinheiro. Roubou os fundos da minha poupança e sumiu. Não atendia o celular. Disse à minha mãe que estava na minha casa e falou para Vinícius que estaria no apartamento antigo. No seu quarto, nenhuma pista. No armário, nenhuma roupa. Nada. Na minha conta bancária também.

 

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S02E12: Class Act

Para ler ouvindo: Coconut Records – Is This Sound Okay?

Deve haver poucas diferenças entre um tímido e um narcisista. Ao entrar em uma sala de aula, ambos pensam que todos olham para eles. Um sente vergonha. O outro vê o ego inflar. Mas ambos tem essa impressão de que são o centro da atenção e que qualquer comentário feito por estranhos ao pé do ouvido se trata deles.

Eu não sei em qual dos dois eu me encaixo, mas certamente foi assim que eu me senti quando entrei ali. Curso de jornalismo, manhã. Passei tempo demais andando pelo campus da faculdade na espera de que houvesse um sinal avisando o inicio da aula. Não havia e eu entrei ali, atrasado, como tinha que ser. E seria sempre.

Era bom, depois de tanto tempo, sentir que eu fazia algo por mim mesmo. É verdade que um diploma neste curso poderia ser usado, ao máximo, como mouse pad. Eu não tinha talento para trabalhar na TV falando sobre trânsito ou buracos na ruas e morria de preguiça de escrever reportagens longas.

O que me interessava aqui era a oportunidade de contar histórias de pessoas para pessoas. De trabalhar a realidade como trabalhamos com a ficção, cheia de recursos, valorizando as personagens e, quem sabe, tentando causar uma certa identificação a quem lê. Eu não precisava inventar as minhas próprias histórias, mas apenas saber contar bem a dos outros. Jornalismo tornava-se isso para mim.

Há algo estranho quando você entra na faculdade. No colégio, se você era bom em matemática, sabia muito sobre História ou escrevia como ninguém em Redação, você se destacava. Tornava-se o preferido do professor daquela disciplina. Estar no Ensino Superior é sentar-se em uma sala com outras 60 pessoas que são pelo menos tão boas quanto você naquilo. Pelo menos no início.

E é aí que eu percebi que não escrevia tão bem quanto achava. Que transformar histórias em palavras não era tão simples. Era um processo que envolvia um senso extremo de organização de idéias. Mais importante ainda era descobrir a forma como um texto funciona para você. Conhecer seu estilo, aprender a ter a sua forma de escrever e investir até que ela se torne o melhor que você pode oferecer.

Não raro eu passava noites em casa estudando. Vinícius sentava-se na ponta da cama enquanto eu, deitado, lia algo no notebook. Na sala, Thiago, meu irmão, assistia a algum seriado americano na televisão. Éramos como uma família. Pai, pai e filho. Uma família torta, mas uma família.

Digo isso porque quando eu passava o dia fora, chegava em casa para descobrir que Vinícius havia aprendido a cozinhar. O arroz queimava às vezes e, bom, nunca havia feijão. Mas era uma forma de ele mostrar que apoiava a minha decisão e que estava ali para mim. Ele entendia o quanto eu precisava fazer algo por mim e tenho certeza que se sentia aliviado por isso. Quanto mais tempo eu passasse entretido comigo, menos poderia passar procurando motivos para briga e DR.

Trabalhos em grupo tornavam-se cada vez mais comuns e eu fazia novos amigos. Colegas de faculdade, que discutiam sobre a consistência do chantilly ou sobre como o país seria mais interessante se tivesse sido colonizado pelos astecas. E nesse ambiente acadêmico era a primeira vez em muito tempo que eu não via os homens da minha vida como parte de um cardápio. Analisando suas potencialidades como namorados, amantes ou ficantes de uma noite.

O efeito colateral de tudo isso é que Vinícius e Thiago passavam mais tempo juntos e a cumplicidade entre os dois aumentava. Eu me sentia como o pai que trabalha o dia todo, chega em casa para encontrar a mãe e os filhos rindo de um episódio de Friends. Aquele pai que se senta na ponta do sofá, tenta participar da brincadeira, não consegue, pede pra mudar de canal e desagrada a todo mundo.

Conforto estraga as pessoas. Ele o mantém estacionado, imóvel. Eu fiquei assim por muito tempo, por não precisar trabalhar, por não saber o que estudar, por estar em um relacionamento estável, por ser emocionalmente ausente com a minha família. Até que um dia você acorda e percebe que, se não estivesse vivo, não haveria muito que o mundo sentiria falta.

Eu me sentia como se fosse emocionalmente retardado, de fato. Como se questões adolescentes estivessem sendo tratadas tão mais tarde em minha vida. Ao tornar o amor o único objetivo da minha vida, não dei a devida importância ao fato que é preciso ser um antes de ser dois. E eu ainda não era nem meio, logo nada meu poderia ser inteiro ainda. Mas eu estava no caminho. E pode ser que no final essa soma me faça perceber que Vinícius não encaixa mais na equação. E meu irmão parecia ser uma incógnita, disposta a incomodar. Mas quando eu saia de casa, fechava aquela porta e deixava o drama ali, naquele apartamento que tinha “Montauk” escrito acima da maçaneta.

Sempre forcei minhas decisões a grandes momentos, grandes reflexões. Como se cada movimento da minha vida precisasse de uma virada de página, uma alteração no roteiro. Os dias iam passando, eu voltava pra casa e encontrava Thiago e Vinícius assistindo a filmes assim, cada vez mais perto no sofá e eu ali, mais distante. Algo em mim dizia que eu deveria separar essa amizade, expulsar Thiago de casa e queimar o sofá, mas eu decidi por mim, e pelos dois, que só tomaria uma atitude caso algo realmente acontecesse. Por ora, no retorno, havia sempre um arroz queimado e um pouco de batatas.  Um dia desses, teve feijão. Bem ruim, mas era Thiago aprendendo também a cozinhar. E nesse universo todo de comportamentos diferentes, eu também tinha minha conta: havia bem pouco sobre o que reclamar.

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S02E11: Atonement

 

Para ler ouvindo: The Strokes – I’ll Try Anything Once

Eu já recebi todo tipo de notícia de rompimento. Por meio de gritos, aviso de amigos, e-mail sincero, tweet indireto, abraço mal-apertado. Não há nó de relacionamento que eu não tenha visto ser desatado.

Nessa sequência de frases desferidas com o objetivo de um ponto final, o que constrange mais são as vírgulas e as reticências. E as aspas. Com certeza, as aspas. As frases que você disse sendo usadas contra você, promessas não cumpridas.

Cada vez mais eu percebo que, enquanto eu não souber me controlar, estar apaixonado é como ensinar um canibal a comer de garfo e faca. Criam-se os meios para que o processo exista, mas ele não deixa de ser mais ou menos errado por causa disso.

Por não saber bem o que dizer, entrei em casa e comecei a rabiscar uma carta para Vinícius. Ele segurou e minha mão e me disse: “pare”. E nada mais. E eu ficava ali, olhando, esperando por um complemento, por uma reação que indicasse o rumo do que viria, mas o ponto ficou ali, no “pare”.

Deve existir algo como ser emocionalmente retardado. Analfabeto emocional. Tudo me é externo. Ter uma personalidade baseada em conflito e sintonia me torna uma pessoa muito sozinha quando estou sozinho. E aí é assim, quando se grita, não há eco, só silêncio.

Há toda uma grande parte de mim gritando pra ser descoberta. Uma parte que foi soterrada por uma porção de defeitos que assumi como traços de personalidade. Como características próprias de alguém que dizia adorar ser quem é, sem suportar bem o peso de tudo isso.

E é claro que este peso é insuportável. Ele está baseado em impressões falsas, em emoções equivocadas e amores imprecisos. Não é que eu tenha passado esse caminho todo enganado sobre mim. É que eu sobrevalorizei o percurso em relação ao caminhante, que sou eu. De que vale a jornada se não há quem vai chegar?

Aquela cena de ciúme presenciada era o grito que faltava para me fazer perceber o quão vazio eu estava. O quanto entediado eu estava. O quão estacionado eu estava em um parque de insegurança, conflitos e inexperiência afogados por uma paixão.

As coisas pareciam mais calmas e eu me sentia aterrissando. Era possível ouvir meu irmão se explicar por ter levado um namorado para o meu apartamento, repreendê-lo por isso, sem criar uma situação absurda. E brincar sobre o assunto com o Vinícius, ainda que com um sorriso nervoso, sobre como pensei que ele poderia me trair com meu irmão.

Se eu me olhasse no espelho, acho que eu me sentiria um pouco enganado. Um pouco fingido. Talvez eu não fosse tão inseguro como eu pensava. Talvez não fosse tão carente. Pode ser que, em algum ponto, eu me decidi que era isso que eu era, assinei os papéis e casei com a personagem.

Eu quero chegar aos 40 anos e saber exatamente o que causou cada ruga no meu rosto. Cada fio de cabelo que tornou-se branco ou caiu. O motivo de cada cicatriz. A razão de cada impulso. E para isso, eu precisava me conhecer melhor do que ninguém.

E é nessas horas que eu percebia como eu só me notava e notava ao outro através de problemas. Amigos só eram reconhecidos durante o conflito, meu amor só era valorizado quando em perigo e, quando está tudo bem, parece que nada acontece.

Talvez eu tenha passado tempo demais absorvendo. Tornei-me um enorme quebra-cabeças, cheio de peças que não são nem minhas. Era hora de ver o que me serve, ver o que é meu e, aí sim, montar as peças.

Pode ser que Vinícius não faça as malas e me deixe. Pode ser que ele não me diga as frases que eu vou repetir para amigos, anotar em moleskines e me lembrar quando tocar Damien Rice no caminho para casa. Mas a verdade é que eu precisava de frases minhas, rabiscos meus.

Foi assim que eu encontrei notas minhas, cartas minhas, fotos minhas. Mentira. Fui atrás disso. Eu queria me ver, com aquelas roupas que eu sempre uso, com o rosto escondido atrás das mãos. Em algum lugar eu deixei esse cara para trás em favor dos outros. Não sou bobo. Não há altruísmo aqui. Fiz para os outros para tê-los para mim. Hoje eles estão aqui, mas eu pareço não estar.

Deve ser a hora de eu me apresentar para a vida. Descobrir no que eu sou bom, o que eu sei fazer bem. Ter um currículo, quem sabe. Definições em tópicos, impressas em papel A4. Sentar do outro lado da mesa em uma seleção de emprego. Olhar para os olhos do entrevistador e me sentir de cuecas. Sem tesão, só vergonha. E estudar, aprender algo que não seja novos sabores de miojo. Conhecer mais desse mundo do que sabores de pizza que meu namorado gosta.

Para ser sincero, é bem possível que eu tenha dito tudo isso e esteja errado de novo.  Parte de mim até quer errar de novo…porque eu adoro recomeços. Adoro essa sensação de epifania e season premiere. Há todo aquele dano que é irreversível, mas também gosto dessas cicatrizes.

Entre tantas dúvidas, minha única certeza é que hoje, pra mim, parece que eu sou a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Estou rompendo com a imagem no espelho, um relacionamento com luto pré-pago. O maior pecado desta minha coleção de pequenos pecados amorosos até agora foi esquecer que este coração tem dono. E ele sou eu.

 

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S02E10: Not About Love

Para ler ouvindo: Fiona Apple – Not About Love

E eu entrei naquele apartamento que era meu e vi duas cuecas jogadas no chão. Nenhuma das duas eram minhas. O computador tocava alguma musica que eu não podia reconhecer e havia peças de roupas jogadas pelo apartamento. Com a chave nas mãos, eu mal pude fechar a porta. Coloquei o saco com os pães na mesa do canto e fui procurando pelos personagens da ação, assim, sem respirar. Meias emboladas, um shorts, uma calça e duas camisetas. Eu tentava calcular ali, friamente, quanto tempo uma calça apertada como aquelas levaria para ser tirada do corpo. De tão justa, deveria ser vestida a vácuo. Para tirar, era preciso muita força de vontade. Ou tesão, muito tesão. Eu sempre medi meu desejo sexual pela velocidade em que as roupas eram tiradas do corpo. Parecia que as minhas camisetas simplesmente se desintegravam quando eu estava prestes a transar com Vinicius. Eram a primeira peça a sumir do meu corpo e se acumulavam em alguma parte do apartamento, para nunca mais serem encontradas. E, dessa forma, estar com o torso nu era como vestir uma armadura e estar pronto para a batalha sexual a ser travada naquela cama. Estas peças estavam ali, no chão, querendo ser encontradas. Sem vergonha, sem culpa. E eu dei cada passo com muito cuidado porque eu queria me lembrar disso para sempre. Eu queria registrar essa cena. Queria poder contar essa historia sendo milimetricamente exato. Se possível, para justificar um duplo homicídio certamente não-premeditado. Atravessei o sofá que dividia a sala, empurrei a porta do meu quarto. Ela abriu bem devagar. Apesar do escuro causado pelas janelas fechadas e decoração minimalista, pude perceber que minha cama estava intacta. Lençóis e almofadas em seus lugares e nenhum sinal de odor corporal que pudesse ser ligado a sexo. Vinicius e eu havíamos feito sexo na noite passada. Não foi bom. Foi burocrático e, no final, ele acendeu um daqueles Marlboro Light, que eram tudo que iluminava o quarto. Eu já não me incomodava com o cheiro do cigarro. Não me incomodava com o gosto estranho que ficava do beijo de boa noite. Só me incomodaria se nada disso acontecesse. Voltando a sala, os cinzeiros estão limpos. Vou ate o antigo closet. No chão, o colchão que acomodava Thiago, meu irmão. Uma zona. Não sei se era impressão minha mas a fronha do travesseiro parecia mordida. O lugar parceria úmido. Iluminado, como ambientes apaixonados costumam ser. Volto para a sal e de lá espio a cozinha. Vazia. Nada acontecia ali a não ser uma lenta decomposição de lanches feitos em pães de forma e largados no balcão. Entre o silencio de uma musica e outra, escuto o chuveiro e risos. Muitos risos, abafados por barulhos de beijos. Já notou como pingos do chuveiro fazem mais barulhos quando se toma banho acompanhado? É como se as gotas pulassem de um corpo para outro até então decidirem ir pelo ralo. E eu já via Vinicius pulando de um para o outro, enquanto meu namoro ia para o ralo. E eu abriria aquela porta e encontraria os dois, um dentro do outro, comigo no canto. Comigo de fora. Sem eu. Fim da equação. E quem poderia culpa-lo por me trocar por um modelo mais novo e aprimorado? Por um tanto de excitação que eu já não mais oferecia. Por alguém que não via amor como uma forma de passar o tédio, mas como experiência, como forma de vida. E eu não poderia chorar, e eu teria que ser forte e mandar os dois que saíssem dali. E teria que ve-los se vestindo, envergonhados. Talvez arrependidos.  Sabe Deus quanto tempo levaria para Thiago conseguir encaixar aquela calça de volta no corpo. Eu assistiria a tudo aquilo, fecharia a porta do apartamento  e de tanta coisa em minha vida. Eu não podia fazer aquilo. Há momentos que sentimos que serão definitivos. Marcantes. Inesquecíveis. Esse seria um deles. Eu passaria anos conversando sobre esses cinco minutos com diversos analistas na procura de encontrar uma forma de lidar melhor com essa situação. Cheguei a colocar a mão na maçaneta, mas não abri a porta. Sai dali andando de costas em direção ao hall. Antes de sair, desliguei a chave geral e todas as luzes do apartamento se apagaram. Ate o quarto ocupado por meu irmão parecia mais escuro. Tudo parecia mais escuro, desligado e logo eu veria os dois saindo pelo banheiro. Resolvi tomar ar. Saí do apartamento e fui escorregando pela porta, sentando no tapete, do lado de fora. Olhei para cima e vi o sonho de Montauk, que anotei na maçaneta, ainda não concretizado. E eu chorava sim, baixinho. Sem soluços, sem nariz irritado. Só com lagrimas teimosas, seguindo a lei da gravidade. E agora eu chorava com a cabeça entre os joelhos. Senti a porta atrás de mim se abrir. Levanto os olhos. Vejo Thiago. Vejo Vinicius. Thiago atrás de mim, dentro do apartamento, com um lençol enrolado na cintura. Vinicius a minha frente, completamente vestido, chegando em casa com compras do mercado. Entre eles dois, havia somente eu. Era só o que havia. Isso. E só eu sei como é difícil lidar comigo mesmo.

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