Cada um sabe quanto tempo é preciso para cicatrizar uma ferida. Seja com o sopro da mãe ou o abraço de um amigo, a pele nunca mais se fecha da mesma maneira. São novos tecidos, novos tempos. Uma marca que você pode carregar para sempre, ainda que invisível a olho-nu.
Deve ser difícil demais terminar um relacionamento e manter-se próximo à pessoa. Acompanhar a dor de transformar o amorem amizade. Vê-laconhecer novos amores, utilizar táticas que usou com você. Artifícios que funcionaram e vão continuar funcionando.
Parecia para mim que a melhor forma de lidar com a ausência de Vinícius seria feri-lo. Cometer um pecado amoroso sim. Um erro calculado, ciente das suas proporções e punições prováveis. Magoá-lo seria uma forma de afastá-lo de mim e poder curar-me sozinho.
Não foi meu namorado quem terminou comigo. Não houve um fim, com todas aquelas palavras que carregamos para debaixo do travesseiro todas as noites. Era mais como um coletivo de ausências constantes. Como eu poderia manter meu amor aquecido se ele estava tão longe, sem dar notícias? Como manter esse relacionamento estabilizado, no ponto em que parou, se a vida continuava? Continuava sem ele.
Agora eu moro com Felipe. Sim, mais um nome masculino em minha vida. Felipe é ex-namorado de Vinícius, trabalha como fotógrafo para uma revista. Ganha mal, mas recebe dinheiro dos pais que moram no interior. Parte desse orçamento ele usa para comprar maconha. Cada dia ele utilizava um nome diferente para descrever a erva. Só aceitei quando ele a chamou de Vinícius.
Felipe era muito divertido e tinha uma mania de andar de toalha pela casa. Comprei para ele um hobby, mas este nunca saiu de trás da porta, pendurado junto à gravatas nunca usadas e um pôster de David LaChappele. Por fumar tanto, ele estava sempre com fome. Preparava refeições ótimasem minutos. Apoiávamosos pratos no colo, sentávamos na sacada e ele fingia bem me entender enquanto eu proclamava meu mimimi decorado.
Suas soluções eram sempre práticas: está com saudades? Ligue. Está triste? Coma brigadeiro. Está insatisfeito? Termine o namoro. Está irritado? Faça sexo. Esta última tinha sabor de um convite e eu cada vez mais tinha vontade de aceitar.
Ser fiel. Condição especial. A vitória da mente sobre o corpo. Reagir aos seus impulsos primitivos e controlá-los. Não atender aquele telefonema, não responder àquele flerte. Negar-se a oportunidade da iniciativa. Uma coletânea de negativas em prol de um sim: a fidelidade amorosa. Este era meu exercício diário: a resistência.
O mundo talvez fosse um lugar mais feliz se a fidelidade fosse condicional. Eu prometo dedicar todo meu amor a você enquanto você estiver presente e me fazendo feliz. Caso uma dessas condições não seja cumprida, este amor, que é meu, então dedicado a você, pode ser transferido à outra pessoa.
Eu tentava me enganar achando que seria fácil assim encontrar um novo destinatário para o meu espólio sentimental. Não era simples assim. No entanto, o que fazer com a vontade de me distrair da solidão com uma boa dose de sexo? O que fazer quando você não acredita mais em filme pornô? Masturbação? Sexo com a pessoa que você mais ama, diria Woody Allen. Eu nunca fui meu tipo.
E é por isso, por andar a perigo, que eu me tornava distraído em todos os lugares. Na faculdade, eu observava a tudo e a todos. O intervalo entre as aulas era o meu safári e nunca me faltou gazela. Não lancei ataque algum, mas não foi por falta de vontade. No estágio, a situação era pior ainda. Não raro me peguei flertando com colegas de trabalho. Cheguei a desferir um golpe para cima do próprio chefe, que foi logo repreendido. Despedido por desejo de uma pica. Este seria meu destino.
A tristeza de ter um relacionamento a distancia, ou estar distante dentro de um relacionamento, é que tenta-se compensar esta falta com excesso de amorzinho. Eu não precisava de amorzinho. Amorzinho eu encontrava no Tumblr, em abraços de amigos, em tweets de pessoas fofas e pseudo-felizes. Eu precisava de consumação, possessão e cigarros acesos após essa sessão. Se sexo, por fidelidade, me era proibido, a resposta era balada. Ali, a consumação era em bebida, a possessão era por hits de Lady Gaga e os cigarros eram empréstimos sem devolução. Vivela Fête.
Não existe promiscuidade. Existe sexo aleatório. A escolha por um parceiro que satisfaça a sua vontade e pronto. Isto não era eu. Eu não penso assim. Mas estava pensando. Ainda não estava agindo como, mas estava pensando. Era como se eu estivesse girando, em efeito espiral, indo cada vez mais longe da rota que eu tracei por algo tão simples.
O que eu precisava era de alguém que me desse uns dois ou três tapas morais na cara. Um amigo que me levasse ao cinema e enfiasse uma pipoca na minha boca cada vez que eu tentasse beijá-lo. Alguém que me ameaçasse com castração química cada vez que eu propusesse sexo. Mas onde encontrar isso? Eu precisava de alguém que não sentisse a menor atração por mim. Não seria difícil de encontrar, claro, mas quem mantém contato com esse gente que se sente assim sobre você?
A melhor forma que eu encontrei foi dançar com uma garota. Renata era o nome dela. Tinha os cabelos estrategicamente tingidos de preto para tornar a sua pele ainda mais branca. Ela brilhava naquele lugar e não era por ter esbarrado no glitter de uma drag queen. Existia algo dela que gritava por vida. Podia ser só êxtase. Podia ser cocaína.
A verdade é que eu bebi demais como forma de me estabilizar. Foi um porre calculado. Homem nenhum chegaria em mim naquele estado e nenhum me levaria à sério falando tão enrolado como eu estava. E foi aí que Renata foi solidária e me levou pra casa.
Enquanto eu me recuperava, deitado em seu sofá, enrolado em cobertor, ela fumava maconha e reclamava sobre o namorado sempre ausente. Fotógrafo de arte, barbudinho, mal humorado. Você conhece o tipo. Eles estão por toda a parte. (Menos na minha cama, eu pensava).
Talvez eu estivesse no cio, mas, enquanto caminhava ao quarto de hóspedes, via as fotos na parede daquele casal e ele me parecia tão atraente. Parecia conhecido. O nome dele estava na ponta da língua, mas o álcool não me permitia. Apesar de um tanto tonto, resolvi tomar um banho antes de dormir.
Renata me avisou para eu não trancar a porta do banheiro. Disse que só pessoas da casa sabiam destrancá-lo e eu poderia passar mal com o vapor e precisar da ajuda dela. Acreditei. Quando estava começando a passar shampoo no cabelo, a porta se abriu. Encostei na parede do box, meio assustado. Renata entrou, tirou a camiseta e todo o resto. Juntou-se a mim debaixo do chuveiro e me deu um beijo. Não sei se o beijo foi longo, mas fomos interrompidos. A porta se abriu. Era o namorado dela e eu estava certo. Ele não era um estranho.